Coração pendular
Blog de frestras. Não é diário íntimo. Para jogar as imperfeições no circo, desentupir excessos, fazer uma calçada.
Acabei de acordar de um sonho eletrizante. Chegava na beira do Brasil por uma costa de pedregulhos, em uma versão 2D de um mapa do litoral, montada num cavalo preto por quem eu estava apaixonada. Ele tinha algumas cicatrizes na pele, onde já não nasciam mais pêlos. Tinha umas pernas muito fortes o cavalo, de quem já tinha cruzado dois continentes e chegava a sua terceira sina, alucinado por esmagar sem piedade uns inimigos que não queria me contar quem eram.
Eu tava meio tonta. Como se nunca tivesse dormido. Estranha, como se tivesse saído dum pequeno coma. Não, como se tivesse ficado muito tempo debaixo d’água. E, de fato, tinha a pele bem ressacada, como queimada do sal e iodo, e um pouco de areia nos cabelos, também queimados, embaraçados e muito muito dourados, de sal, imaginei Tinha uma pequena mobília viajando comigo. Bolsas grandes e pequenas, caixas, conchas, pedras, mantos e panos de várias cores, um verdadeiro equipaje cigano. Prá que? Só sabia que queria o cavalo perto de mim. Mas no bolso do vestido que me cobria estava um papelzinho amassado que me deu a maior esperança. Bem pouco legível, comecei pelo lado que tinha uma explicação com mais tinta. Comecei por esse lado. Estiquei o papelzinho, que me explicava em letras bem tremidas que eu vinha mesmo de uma terra submersa de mar de nome ilegível onde havia morado por décadas, como separadora de lodo de estrelas do mar. Separadora de lodo de estrelas do mar! Sacudi a cabeça prá entender isso, e virei o outro lado do papel.

Posso passar todo o tempo mentalizando você cada hora em cada um só vendo você prá ver se te materializo de tanto pensar-te
Foi na janela
Mas não encontrou prá quem dizer
que hoje morreu e nasceu, com alegria
mais uma volta do espiral
sem choro, sem culpa, nem barulho
subiu e desceu uma ordem prá findar-se
um tempo
um jardim
um cominho de sentimentos
despetalados
que foi dormir em paz
do lado de lá
foi no banho hoje de manhã que se deu conta
desse alegre funeral de nascimento
mais um
preparado no escuro
e arrebentado sem alarde
Por uma misteriosa fagulha
que dá a luz enquanto mata sem crueldade as células mortas
de uma fase desterrada.
ocupando o lugar daqueles pensamentos repetitivos
trepadeiras das últimas eras
Haviam se instalado
Uma penca de novos batimentos cardíacos
Festa de povos da madrugada se agitando no metrô
Crianças sem medo colocam os pés no mar
Um senhor em lampejo recobra o dia de seu primeiro enamoramento
A meia lua de uma mesquita chinesa é avistada por um passante desesperançado
em Belém
Uma fileira de flores mexicanas em dia de finados derretem aromas no asfalto quente
De Guadalajara
e seu céu ganha um tom de azul
E enquanto a água suja se ia e a nova pele secava
ela só queria pegar aquela fagulha da transformação
e acender uma tocha
prá dançar com os seus
enquanto aquela alegria imprevista tivesse vida.