Blog de frestras. Não é diário íntimo. Para jogar as imperfeições no circo, desentupir excessos, fazer uma calçada.

Segunda-feira, Novembro 09, 2009

Cérebro circular
Coração pendular

Sábado, Outubro 17, 2009

Black Horse


Acabei de acordar de um sonho eletrizante. Chegava na beira do Brasil por uma costa de pedregulhos, em uma versão 2D de um mapa do litoral, montada num cavalo preto por quem eu estava apaixonada. Ele tinha algumas cicatrizes na pele, onde já não nasciam mais pêlos. Tinha umas pernas muito fortes o cavalo, de quem já tinha cruzado dois continentes e chegava a sua terceira sina, alucinado por esmagar sem piedade uns inimigos que não queria me contar quem eram.

Eu tava meio tonta. Como se nunca tivesse dormido. Estranha, como se tivesse saído dum pequeno coma. Não, como se tivesse ficado muito tempo debaixo d’água. E, de fato, tinha a pele bem ressacada, como queimada do sal e iodo, e um pouco de areia nos cabelos, também queimados, embaraçados e muito muito dourados, de sal, imaginei Tinha uma pequena mobília viajando comigo. Bolsas grandes e pequenas, caixas, conchas, pedras, mantos e panos de várias cores, um verdadeiro equipaje cigano. Prá que? Só sabia que queria o cavalo perto de mim. Mas no bolso do vestido que me cobria estava um papelzinho amassado que me deu a maior esperança. Bem pouco legível, comecei pelo lado que tinha uma explicação com mais tinta. Comecei por esse lado. Estiquei o papelzinho, que me explicava em letras bem tremidas que eu vinha mesmo de uma terra submersa de mar de nome ilegível onde havia morado por décadas, como separadora de lodo de estrelas do mar. Separadora de lodo de estrelas do mar! Sacudi a cabeça prá entender isso, e virei o outro lado do papel.

Quinta-feira, Outubro 01, 2009

Segun se mire


um espaço vazio é um projeto realizado a menos,
um plano a mais na lista

coraçao pela metade

oficina do diabo

ponte interrompida pro pote de ouro no fim arco-iris

mas não só
porque vazio

o espaço sem tudo é também

um buraco de fechadura ao alcance dos olhos mimados

o espaço vazio é o buraco onde cabe o sonho que cresce
porque tem espaço

Domingo, Setembro 27, 2009

Il faut se méfier des mots

Posso passar todo o tempo mentalizando você cada hora em cada um só vendo você prá ver se te materializo de tanto pensar-te
Que em pensamento
We trust
Em acreditando, tudo é

Mas a mente tem uns brônquios estranhos

Por onde passam ventos misteriosos


E de tanto pensar-te chego a
dis-pensar-te

No fim do dia

Por um passatempo
de alegria
ave de rapina, alívio, oxigênio da espera

Só por hoje


Bálsamo de coração- pulmão inflado
e inflamado de tanta Promessa e pensamento.
...
Mas passatempo é passatempo

Pensamento é pensamento

E coração que realiza é só ele.

Quinta-feira, Setembro 10, 2009

Felicidade Clandestina



Ta na hora de procurar outro mar.

Fatalmente outro olhar.

Ser criança selvagem prá do alto de um avião poder enxergar uma gota de ouro fixada num coração dormitório.





(Livremente inspirada no Elefante Mirim e em Clarice)

Quarta-feira, Julho 29, 2009

do outro lado da linha do escudo


Cada vez que chega uma carta tua do outro lado
tenho o impulso de responder
soltando mais um pedaço de linha do meu carretel

e te oferecer metros menos de mim de longe
a possibilidade e a sina de se comunicar comigo prá sempre

chances a mais de se deparar com tesouros de pólvora e bombas de ouro numa caixa preta de cores não confiáveis

E esse feixe de flechas - metade contaminada, metade insuflantes
bem ia cravar-te um novo código no peito

mas o ar está cheio demais de microondas, macroondas e
medíocres ondas que confundem
comunicação virtual demais

e o feixe as flechas o veneno e o tesouro estancam no ar parado o sinal fica fraco e com medo eu seguro tensa a linha do carretel com medo dos raios no meio do ar quente a linha congelada da ligação com medo a conexão muda a
ligação se interrompe

e nem você enriquece nem você explode
nem desiste nem morre envenenado de amor e eu
nem relaxo o carretel
nem puxo de vez esse anzol
cada vez que chega uma carta tua do outro lado
o tempo e o espaço podiam ser nada
o poder da vontade podia ser tudo
o amor maior que
mas minha fala fica mais muda.

Quinta-feira, Julho 23, 2009

Quase inexplicável I

Foi na janela

Mas não encontrou prá quem dizer

que hoje morreu e nasceu, com alegria

mais uma volta do espiral

sem choro, sem culpa, nem barulho

subiu e desceu uma ordem prá findar-se

um tempo

um jardim

um cominho de sentimentos

despetalados

que foi dormir em paz

do lado de lá

foi no banho hoje de manhã que se deu conta

desse alegre funeral de nascimento

mais um

preparado no escuro

e arrebentado sem alarde

Por uma misteriosa fagulha

que dá a luz enquanto mata sem crueldade as células mortas

de uma fase desterrada.

Quase inexplicável II


e
de repente se deu conta de que

ocupando o lugar daqueles pensamentos repetitivos

trepadeiras das últimas eras

Haviam se instalado

Uma penca de novos batimentos cardíacos

Festa de povos da madrugada se agitando no metrô

Crianças sem medo colocam os pés no mar

Um senhor em lampejo recobra o dia de seu primeiro enamoramento

A meia lua de uma mesquita chinesa é avistada por um passante desesperançado

em Belém

Uma fileira de flores mexicanas em dia de finados derretem aromas no asfalto quente

De Guadalajara

e seu céu ganha um tom de azul


E enquanto a água suja se ia e a nova pele secava

ela só queria pegar aquela fagulha da transformação

e acender uma tocha

prá dançar com os seus

enquanto aquela alegria imprevista tivesse vida.